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Actualizado em: 15.02.2004

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FRANCESES FORAM SUPERIORES MAS SEGUEM PARA A FINAL DEVIDO A UMA GRANDE PENALIDADE POLÉMICA E INJUSTA

 

Portugal-França, 1-2: É triste perder por capricho um sonho de anos

 

Parece evidente, após muitas repetições, que no lance de toda a polémica Abel Xavier tenta até tirar o braço do caminho da bola, que lhe bate antes de seguir para fora. Seria canto. Mas o homem da bandeira não vacilou: chamou o chefe de equipa e indicou-lhe uma grande penalidade que surpreendeu toda a gente

 

Bruxelas - Inglório! Portugal caiu nas meias-finais do Campeonato da Europa, diante da França, com uma decisão polémica de um árbitro auxiliar que viu, num remate “à queima” de Wiltord, no prolongamento, após quase 115 minutos de luta justa, viril mas leal, uma grande penalidade hipoteticamente cometida por Abel Xavier. Uma decisão tremenda, frustrante, que o espectáculo não merecia. E este era o mesmo auxiliar que já tinha deixado passar em claro uma posição muito duvidosa de Anelka no lance do golo do empate. Milímetros que podem ser vistos na televisão, mas que no estádio só podiam ser medidos por um homem de convicções e de certezas...

Parece evidente, após muitas repetições, que no lance de toda a polémica Abel Xavier tenta até tirar o braço do caminho da bola, que lhe bate antes de seguir para fora. Seria canto. Mas o homem da bandeira não vacilou: chamou o chefe de equipa e indicou-lhe uma grande penalidade que surpreendeu toda a gente.

A revolta que se seguiu era inevitável. Figo quis sair do jogo e outros jogadores andaram de cabeça perdida perto dos limites. Nuno Gomes acabou expulso. Humberto Coelho, sempre calmo, procurou evitar a catástrofe de uma agressão.

Por muito que se queira ter compreensão pelo rigor de apreciação do árbitro auxiliar, tem de dizer-se que a decisão, além de muito discutível, não tem bom senso. Num jogo destes, numa altura destas, só se assinala uma grande penalidade acima de toda a suspeita. Este lance, a culminar um jogo de luta dramática, merecia a apreciação de um homem mais experiente e justo.

Portugal caiu, assim, de forma inglória e tremendamente chocante. É penoso trabalhar tanto para acabar por sair da competição devido a mais um capricho milimétrico de um homem de certezas.
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O jogo estava marcado por uma componente histórica e simbólica que lhe transmitiu uma certa carga de dramatismo. Portugal “versus” França para tirarem a “limpo” a célebre noite de Marselha, num longínquo Junho de 1984.

Após uma tarde de festa, colorida, alegre e bonita, o jogo, tem de se reconhecer, acabou por mostrar a França como uma equipa superior, mais equilibrada em todos os sectores, mais madura. Não seria injusto que tivesse ganho no final dos 90 minutos. A resistência portuguesa, sofrida, lutada, suada, impediu-o no entanto.

Pode dizer-se, agora, depois de tudo visto, que se calhar teria sido melhor Portugal apresentar outro meio-campo, mais criativo, capaz de sair a jogar e servir em condições os muito vigiados Figo e Rui Costa. A falta de Paulo Bento, pelo menos, foi demasiado sentida. Costinha e Vidigal, trabalhadores incansáveis, recuperavam bolas que depois perdiam e perdiam bolas que depois ganhavam - mas neste carrossel a equipa portuguesa não jogava. Não conseguia ter a bola, fazê-la circular, colocar em campo o belo futebol tão apreciado neste excelente torneio.

Essa opção marcou o encontro, tanto ou mais que a diferença física entre os jogadores. A França acabou por ser superior, muito pela pressão constante, mormente de um “miolo” demolidor (Vieira-Deschamps-Petit), atlético, mas que também sabe jogar e bem. Dominou, por isso, o encontro. Portugal marcou cedo (19) e na única oportunidade. A França teve momentos de superioridade sufocante durante a segunda parte. Jogou sempre mais nas proximidades da baliza de Vítor Baía.

Só a entrada de Paulo Bento (57), a racionalizar e a entregar direito, veio ajudar Portugal a sair da tempestade e a conseguir levar o jogo para prolongamento.
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O jogo teve um início cauteloso, com ambas as equipas a demonstrarem o respeito que tinham uma pela outra.

A França apareceu com três centrais, o esquema guardado para resolver as situações difíceis. Vieira, Deschamps e Petit no apoio ao trio atacante, constituído por Henry, na direita, Anelka, ao meio, e Zidane, partindo este normalmente da esquerda mas com a liberdade de movimentos que lhe é habitual. Roger Lemerre deixava, assim, de fora dois criativos habituais, Dugarry e Djorkaef.

Humberto Coelho não mexeu no dispositivo táctico mas surpreendeu com os nomes dos “trincos” e com a preferência dada a Sérgio Conceição sobre João Vieira Pinto. Vidigal e Costinha, com certeza pela disponibilidade física, foram destacados para o combate do meio-campo. Não entrou Paulo Sousa e até saiu Paulo Bento. A escolha de Sérgio Conceição permitiu colar dois extremos às linhas laterais, calhando outra vez a Figo a da esquerda. Portugal segurava desta forma os ofensivos laterais franceses, Thuram e Lizarazu. Na frente, mantinha-se Nuno Gomes.

Os esquemas tácticos eram distintos, mas o resultado era o mesmo: as equipas defendiam com sete e atacavam com quatro, na primeira metade. Na equipa de Portugal saía Rui Costa para o apoio a Sérgio Conceição; na França eram Vieira ou Petit. Quase nunca os dois.

Nos primeiros cinco minutos a bola não saiu da zona intermediária. Só aos 13 apareceu um remate, por Deschamps, de longe, à figura de Vítor Baía.
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A “estrelinha” voltou a visitar Portugal. Na primeira iniciativa atacante, pela direita, um ressalto, após insistência de Sérgio Conceição, permitiu a intromissão oportuna de Nuno Gomes: que belo golo, com o pé esquerdo, aproveitando o adiantamento de Barthez!

A equipa de Humberto Coelho marcava na primeira oportunidade. Nuno Gomes tornava-se no primeiro futebolista português depois de Eusébio a marcar mais que três golos numa fase final de uma grande competição.

O problema da equipa nacional foi sempre o meio-campo. A força do trio gaulês e o bom preenchimento dos espaços, associada à falta de qualidade na condução do jogo atacante assumida com a opção por Vidigal e Costinha, manietou Portugal. Os “guerreiros” quase nunca acertavam na assistência. As saídas para o ataque eram impossíveis pela falta de qualidade do passe.

Neste contexto, não foi nada negativo a manutenção da vantagem do marcador até à chegada do intervalo.
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A segunda parte iniciou um sufoco francês. Portugal tardou em colocar Paulo Bento em campo. Saiu Vidigal em vez de Costinha, se calhar porque o primeiro vira o cartão amarelo. Figo não conseguia receber a bola sem ficar logo rodeado por três ou quatro adversários. A Rui Costa acontecia o mesmo. Faltavam-lhes companheiros que soubessem trocar a bola e repartir cuidados.

O golo de Henry surgira entretanto. Obviamente merecido pela França e na sequência de um bom trabalho individual do jovem extremo, que recuou para conseguir tempo e espaço para o remate. A desmarcação de Anelka, que lhe esteve na origem, foi no entanto bastante polémica. Pareceu claramente fora-de-jogo. A televisão mostrou depois uma legalidade milimétrica.

Seguiram-se tempos extremamente difíceis. O golo francês esteve muitas vezes iminente. O mérito português foi saber resistir. A defesa esteve irrepreensível. Os centrais a saltar, a irem “à queima” sem medo. Belo jogo de Fernando Couto e Jorge Costa, mas também de Abel Xavier (mal a passar) e de Dimas. Este terá feito mesmo o melhor jogo na selecção, pleno de entrega, profissionalismo e brio. Saiu antes do começo do prolongamento porque estava completamente esgotado.
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No prolongamento, as coisas ficaram melhores para Portugal. A França refreou os ímpetos e impôs-se cautelas. Estava em causa o decisivo “golo dourado”.

Por outro lado, Paulo Bento impunha um pouco de ordem, mesmo que já não estivesse ali Rui Costa, substituído por João Vieira Pinto. A França ganhou o jogo no anulamento quase completo que impôs a Figo e Rui Costa.

Ainda assim, antes do lance que decidiu o jogo (grande penalidade apontada por Zidane), Portugal dispôs de um lance de perigo, culminado com um remate de João Viera Pinto não muito ao lado da baliza de Barthez.

A selecção nacional sai de cabeça erguida do torneio. Fez uma prova acima das expectativas e perante a melhor equipa do Mundo da actualidade saiu derrotada por... milímetros. Provou que está no limiar de grandes feitos. Precisa apenas de ganhar mais opções no meio-campo, agora que parece que já não há Paulo Sousa. O Mundial, daqui a dois anos, será uma outra oportunidade.

Da arbitragem já se disse o suficiente.

 

 Fonte: Record

 

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