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Actualizado em: 15.02.2004

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SEGUNDA EQUIPA DE ALTO RENDIMENTO

 

Portugal-Alemanha, 3-0: Mais um momento de magia para a história

 

O crescimento da selecção nacional é surpreendente e está a conquistar o planeta futebol. Portugal refina a qualidade técnica e junta-lhe a veia rematadora por força da chegada à maturidade de um grupo de futebolistas de génio puro

 

Roterdão - Mais uma noite de magia do futebol português neste fantástico Campeonato da Europa. Terça-feira foi o dia de humilhação e despedida da prova do actual campeão - a Alemanha - com uma exibição portentosa de Sérgio Conceição, coroada com um “hat-trick”! Uma “segunda equipa”, de valor equivalente à primeira, voltou a fazer um jogo de grande classe. Sem Figo nem Rui Costa, mas com Sérgio Conceição e Sá Pinto, Portugal mostrou ter jogadores e talento para ganhar à vontade a uma selecção que pode dizer-se em decadência mas ainda é do “top” europeu.

O crescimento da selecção nacional é surpreendente e está a conquistar o planeta futebol. Portugal refina a qualidade técnica e junta-lhe a veia rematadora por força da chegada à maturidade de um grupo de futebolistas de génio puro, pares de todos outros grandes praticantes do Mundo.

Humberto Coelho comanda uma equipa que parece fadada para grandes cometimentos. Joga de igual para igual com qualquer adversário. Tem personalidades e personalidade. Talento e ambição. Abundância de opções. Joga com confiança. Marca golos (a equipa mais concretizadora da primeira fase até ao momento). É um dos favoritos ao título, sem dúvida!

Quem seria capaz de admitir, há poucos meses atrás, um cenário destes? Que não só poderíamos vencer os três jogos da primeira fase como golear a Alemanha sem alguns daqueles jogadores considerados cabeças-de-cartaz do futebol português? E se nós próprios temos de admitir a surpresa, imagine-se o respeito e a admiração que a qualidade desta selecção está a granjear por todo o lado!

Humberto Coelho, por muito que lhe não faltem os críticos sistemáticos das opções técnicas, está a conduzir a equipa de forma segura e competente. Neste encontro poupou as forças de uns tantos e libertou a vontade de todos os outros.

Temperou tudo com o regresso ao esquema táctico (de Wembley, lembram-se?) dos três centrais, fez experiências várias e teve a presença de espírito para lançar no jogo, a dois minutos do fim, o único futebolista ainda não utilizado: o terceiro guarda-redes, Quim. Na primeira fase já actuaram os 22 futebolistas convocados. Se Portugal cumprir o sonho de ser campeão da Europa, todos têm direito à faixa...

A opção de fazer descansar alguns dos habituais titulares, como tínhamos previsto, era a melhor, até para salvaguardar a verdade desportiva da competição. Futebolistas empenhados em lutar por um lugar têm, naturalmente, de evidenciar um outro espírito e uma abordagem do jogo mais positiva, sem qualquer retraimento. Foi isso que se viu no belo recinto de Roterdão: uma equipa motivada, futebolistas a mostrarem ao treinador que lhe querem dificultar as opções - e como consequência um futebol de sonho, em especial na segunda parte, técnico, vibrante, fantasista, empolgante.

A selecção nacional, independentemente de outras comparações mais difíceis, tem hoje a capacidade competitiva que nunca teve. Enfrenta qualquer adversário sem receio e mantém a serenidade em todos os momentos. Seja qual for o resultado final que vier a conseguir, esta equipa está já no lote das melhores da Europa e do Mundo. Colocou toda a gente a falar com entusiasmo e paixão da qualidade de jogo de Portugal. Essa é uma conquista que não é de somenos. Por ela, todos estão já de parabéns.

Humberto Coelho surpreendeu com o esquema táctico - 3x4x2x1. Três centrais, Beto, Fernando Couto e Jorge Costa. Dois flanqueadores, Sérgio Conceição na direita, mais ofensivo e resguardado por Beto, e Rui Jorge na esquerda, menos expedito a subir. Dois trincos, Paulo Sousa e Costinha, este na verdade um jogador surpreendente em boa hora chamado à selecção. Dois “interiores”, à moda antiga: Sá Pinto sobre a direita e Capucho sobre a esquerda, apoiando um ponta-de-lança (Pauleta) que mostrou capacidade para discutir um lugar na equipa em todas as situações.

O treinador português fez uma opção engenhosa, à medida dos jogadores disponíveis e, também, no fundo, regressando à ideia com que há dois anos, frente à Inglaterra, pensou poder lançar, mais rapidamente, as bases de uma equipa capaz de ser mais ofensiva do que até aí. E ganhou mais essa aposta.

A selecção alemã mostrou quanto hoje é respeitada a equipa portuguesa mesmo num jogo em que está pré-anunciado o recurso a futebolistas não habitualmente titulares. O habitual 3x5x2 deu lugar a um efectivo e trapalhão 4x4x2, em que Rehmer e Nowotny marcavam Capucho e Sá Pinto deixando livre Matthaeus, mas em que Linke, face a Sérgio Conceição, praticamente nunca subiu pela ala esquerda. Depois, num jogo em que se tornava essencial vencer, também é de salientar as cautelas alemãs, que deixaram de início no banco jogadores como Kirsten, Haessler e Ziege.

Como estratégia, Portugal cedeu a iniciativa de jogo. A posse de bola final dá conta disso mesmo: 41% para Portugal e 59% para a Alemanha e esses números foram ainda mais claros no primeiro tempo (35%/65%). A equipa de Erich Ribbeck (deve ter feito a despedida, sem glória, ao mesmo tempo de Matthaeus) dominou de forma inconsequente face a uma personalizada defensiva portuguesa, na qual até Pedro Espinha demonstrou quão infundados eram os receios de que não pudesse ser, em caso de necessidade, uma alternativa credível a Vítor Baía.

Como estratégia, Portugal cedeu a iniciativa de jogo. A posse de bola final dá conta disso mesmo: 41% para Portugal e 59% para a Alemanha e esses números foram ainda mais claros no primeiro tempo (35%/65%). A equipa de Erich Ribbeck (deve ter feito a despedida, sem glória, ao mesmo tempo de Matthaeus) dominou de forma inconsequente face a uma personalizada defensiva portuguesa, na qual até Pedro Espinha demonstrou quão infundados eram os receios de que não pudesse ser, em caso de necessidade, uma alternativa credível a Vítor Baía.

Pauleta jogou sempre muito bem. Aos 32 minutos, sobre a esquerda, ofereceu o golo a Sá Pinto, que falhou por pouco, e até a Sérgio Conceição, que não acreditou na falha do defesa germânico. Mas logo a seguir (35) os três mesmo jogadores combinaram para o golo que deu início ao festival de ataque lusitano e ao extraordinário “hat-trick” de Sérgio Conceição. O jogador da Lazio mostrou como pode ser decisivo. Como Figo e Rui Costa, tem a capacidade para decidir resultados. Caminha direito ao adversário, enfrenta-o e engana-o. Qualquer dos golos foi de classe e mostrou como o jogador é completo: primeiro de cabeça, depois com o pé esquerdo de fora da área passando vários adversários, por fim com o direito depois de outra magnífica exibição.

Ribbeck lançou o ex-brasileiro Paulo Rink ao intervalo. Depois chamou Haessler e Kirsten. Em vão! O futebol português, mais brilhante, era um perigo permanente. O 4-0 chegou a estar à vista e, enquanto isso, só por uma vez (remate de Rink, 59, ao lado) a Alemanha esteve perto de marcar.

A superioridade da equipa de Humberto Coelho teve períodos em que marcou um enorme contraste com o futebol envelhecido e previsível da Alemanha. O final foi mesmo penoso para os ainda campeões da Europa, despedidos sem glória.

Depois da vitória frente à Inglaterra, Portugal voltou a escrever uma das páginas mais bonitas do futebol português a nível de selecções. E o mérito de tudo isto, comprova-se, é cada vez mais de todos.

Fonte: Record

 

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